8M reforça luta contra feminicídio em meio a dados alarmantes no Brasil

Protesto contra feminicídios e outras violências contra mulheres em Florianópolis

Catarina. Lucila. Karla. Débora. Esses e tantos outros nomes serão lembrados no Dia Internacional das Mulheres, celebrado anualmente em 8 de março. O movimento 8M  tem transformado a data comemorativa em manifestações e debates sobre direitos das mulheres. Neste ano, um dos principais eixos é o enfrentamento ao feminicídio – crime que vitimou 1.568 mulheres em 2025 e segue crescendo no país. Além disso, o 8M reivindica condições mais dignas de trabalho e reafirma a resistência feminina.

Os dados divulgados na quarta-feira, 04 de março, pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) fazem o “retrato dos feminicídios no Brasil” e demonstram que a violência contra as mulheres permanece alarmante. Somente em 2025, 1.568 mulheres foram vítimas de feminicídio, um aumento de cerca de 4,7% em relação ao ano anterior. Desde a introdução da Lei do Feminicídio, em março de 2015, mais de 13 mil mulheres foram assassinadas simplesmente por serem mulheres. 

“Temos insistido que o feminicídio é só a ponta do iceberg, porque antes que ele ocorra, geralmente estas mulheres já vivenciaram um ciclo de violências. É preciso políticas públicas concretas para parar este ciclo e evitar o assassinato. Tem muito discurso de políticos contra essa violência, mas pouca política efetiva para a prevenção e enfrentamento do problema”, enfatiza a professora Terezinha Silva, do grupo Transverso/UFSC, que tem coordenado projetos de pesquisa sobre a cobertura jornalística de feminicídios.

O Fórum também faz o recorte racial dos feminicídios e mostra que, entre 2021 e 2024, 62,6% das vítimas eram negras. Para o FBSP, essas mulheres estão, geralmente, “mais expostas a condições de vulnerabilidade socioeconômica, menor acesso a serviços públicos de proteção e maior presença em territórios marcados por precariedade institucional”.

O documento do Fórum também alerta para a relação entre vítima e agressor. “O autor do feminicídio, em regra, não é um agressor eventual, mas sim alguém que compartilhou a vida cotidiana com a vítima, que teve acesso à sua rotina, casa, círculos sociais e familiares”. Os números fazem jus ao posicionamento: em 59,4% dos casos, o assassino era parceiro íntimo e, em 21,3%, era ex-companheiro.

Outro dado que chama atenção é a relação entre o crime e falhas na proteção às vítimas: 13,1% das mulheres assassinadas possuíam medida protetiva de urgência (MPU). Na avaliação do FBSP, o número indica desafios na fiscalização e na garantia de segurança para mulheres em situação de violência. “O problema central não é mais sobre a criação de novas leis, e sim a capacidade de implementá-las de modo efetivo”, argumenta a nota técnica.

O relatório também identifica problemas de infraestrutura institucional através das mortes categorizadas por porte do município. No Brasil, 70% dos municípios com menos de 100 mil habitantes não possuem nenhum serviço especializado para atender mulheres vítimas de violência. Delegacias da Mulher com funcionamento 24 horas, Casas Abrigo e Centros Especializados de Atendimento à Mulher, entre outros serviços de acolhimento, integram uma rede de apoio ausente em boa parte do país.

Em Santa Catarina, foram 52 mulheres assassinadas no último em 255. Além disso, dados do Observatório da Violência Contra a Mulher de Santa Catarina (OVM/SC) registraram 255 tentativas de feminicídio e mais de 31 mil medidas protetivas concedidas. 

Diante desse cenário, movimentos feministas e organizações da sociedade civil têm reforçado o 8M como um momento de denúncia e mobilização coletiva. As manifestações e campanhas em torno da data buscam chamar atenção para a urgência de políticas públicas capazes de prevenir a violência e garantir proteção efetiva às mulheres. Em Santa Catarina, estão previstos atos em várias cidades, como Blumenau, Caçador, Chapecó, Concórdia, Criciúma, Florianópolis, Jaraguá do Sul, Joaçaba, Joinville, Palhoça, Rio do Sul, São José e São Miguel do Oeste.

Texto: Raissa Hübner e Maitê Silveira

Foto: Terezinha Silva (Transverso, 07/12/2025)