Feminicídio: do sensacionalismo das páginas policiais ao fato político 

A professora Terezinha Silva, coordenadora do Grupo Transverso, levou a um público formado por uma centena de pesquisadoras e pesquisadores, jornalistas e estudantes de jornalismo europeus um panorama da cobertura jornalística de feminicídio no Brasil. Ela viajou à França a convite da organização da 18ª edição do “Assises Internacionale du Jornalismo de Tours”.

Ao participar da mesa redonda “Féminicides: du fait divers au fait politique”, realizada na cidade de Tours, na sexta-feira, 14 de março, Terezinha destacou como as mídias jornalísticas brasileiras foram progressivamente se apropriando do termo feminicídio para nomear os assassinatos de mulheres em razão do gênero, ou seja, por serem mulheres. Isso ocorreu a partir de 2015 em matérias mais gerais sobre o assunto, seguindo um movimento feito pela própria polícia, após a Lei do feminicídio (Lei 13.104/2015) entrar em vigor no país; e sobretudo a partir de 2018, 2019, em matérias que abordavam casos específicos de feminicídio. 

A professora ressaltou que embora a correta e necessária utilização do termo feminicídio pelas mídias jornalísticas brasileiras seja importante e demonstre aprendizado social, as práticas jornalísticas em relação ao tema não mudaram muito. “O tratamento e o enquadramento ainda são como se esses crimes fossem fait divers, episódicos, isolados, e não estivessem inseridos em um contexto cultural de machismo e misoginia. Tanto é que, apesar de serem menos frequentes hoje em dia, ainda há casos em que feminicídios são chamados de ‘crimes passionais’, como fez recentemente, ao vivo, a jornalista Patrícia Poeta. Além disso, ainda se dá destaque ao ciúme, a não aceitação do término do relacionamento como motivação para o crime, relacionando-o a um momento de briga, em que o agressor perdeu a cabeça, matou por impulso. Isso também ocorre em decorrência do discurso policial”, disse Terezinha. 

Ela contou que outras professoras/pesquisadoras participantes da mesa redonda relataram que na França a cobertura jornalística dos crimes é muito semelhante ao observado no Brasil. “Evoluímos em diversos aspectos, mas ainda há esse conjunto de limites”. Terezinha lembrou que na Espanha, onde passou um período de pós-doutorado, não se usa tanto o termo feminicídio, como no Brasil e na França, mas “crime de gênero” e “crime machista”, o que, na avaliação dela, “também é interessante porque demarca bem o caráter de gênero envolvido nesses assassinatos”.