
Em que medida a mobilização de mulheres com deficiência, historicamente silenciadas também no jornalismo, como fontes de informação pode ajudar a fissurar representações que as matérias jornalísticas constroem sobre elas? O questionamento é o que instiga a pesquisa da doutoranda Thais Araujo, integrante do Transverso, que qualificou hoje (8 de agosto) seu projeto de tese intitulado “Perspectivas defiças: aleijando representações de mulheres com deficiência no Jornalismo”. As professoras Karla Garcia Luiz (IFSC), Isabel Coelho Colucci (UFSC) e Jessica Gustafson Costa (UFSC) compuseram a banca, presidida pela professora Terezinha Silva, orientadora da pesquisa.
Depois de identificar, durante a investigação de Mestrado, que a mídia hegemônica ou tradicional pouco incorpora perspectivas emancipatórias de pessoas com deficiência, em geral submetidas ao silenciamento – ora por exclusão, ora por tutela -, Thais busca compreender, no Doutorado, como isso ocorre em relação especificamente a mulheres com deficiência em portais que declaram questionar lógicas hegemônicas, como a masculinista, a heterossexista e a capacitista.
No trabalho, a pesquisadora analisa 297 produtos jornalísticos publicados, entre 2015 e 2025, por dois portais com perspectiva de gênero – Revista AzMina e Portal Catarinas. Para realizar a investigação, foram definidas seis dimensões de análise: gênero jornalístico(informativo/interpretativo ou opinativo); temática (observa o eixo temático das matérias e a centralidade da deficiência nas publicações); autoria (identifica se quem escreve é uma pessoa com deficiência e que atividade exerce); fontes (verifica se mulheres com deficiência estão entre as fontes mobilizadas, se há menção de profissão/função exercida e se são acionadas por alguma característica/atividade que não a deficiência); interseccionalidade (observa a complexificação da temática, articulando-a com outros marcadores sociais); representações (identifica as representações construídas e se fissuram/desafiam as hegemônicas).
De acordo com Thais, a análise realizada até agora mostra que quando há mulheres com deficiência como fontes de informação, os textos alternam elementos que desafiam representações hegemônicas e outros que podem ser considerados inadequados e capacitistas. Para ela, isso se dá porque, embora tenha ocorrido um aprendizado social sobre a temática nas últimas décadas, ainda há um choque entre as concepções da deficiência em circulação na sociedade, persistindo as capacitistas.
“Observamos que quando mulheres com deficiência são autoras dos textos, ocorre o que chamamos de pertencimento discursivo. Mas aí se coloca uma questão: como garantir que o jornalismo praticado por repórteres com e sem deficiência tenha essa perspectiva? Certamente, não se pode depender de uma cobertura jornalística personalista, ou seja, não se pode depender apenas de mulheres com deficiência para a realização de coberturas jornalísticas respeitosas, humanizadoras e emancipatórias sobre a temática. É certo que a sociedade precisa avançar nesse sentido, mas como o Jornalismo pode contribuir para isso? Espero que ao fim da pesquisa seja possível apontar caminhos nesse sentido”, enfatizou a pesquisadora.
Numa próxima etapa, Thais planeja entrevistar mulheres com deficiência, ativistas, de cada região do país para identificar como elas percebem e interpretam as representações construídas pelos textos jornalísticos em geral. “O objetivo será compreender como elas avaliam a forma como são representadas por mídias jornalísticas a partir de suas próprias leituras e experiências e que contribuições poderiam trazer para melhorar a abordagem sobre a deficiência. Essas contribuições, certamente, enriquecerão nossa própria análise e interpretação da cobertura das mídias com perspetiva de gênero”, disse.
Ao fim, a pesquisadora pretende elaborar uma lista de fontes de mulheres com deficiência, por saber especializado, atividade ocupacional ou experiência da deficiência, que possa ser compartilhada com veículos jornalísticos. A lista será compilada a partir dos textos analisados e por outros meios. Além disso, também espera sistematizar, com base nos achados da tese, recomendações para abordagens mais frequentes, respeitosas e humanizadoras (anticapacitistas) em coberturas jornalísticas sobre a temática da deficiência e que, acredita, serão úteis em coberturas jornalísticas de outros grupos vulnerabilizados.
A defesa da tese de doutorado está prevista para julho de 2025. A pesquisa de Thais faz parte da linha Cultura e Sociedade do PPGJor/UFSC. Ela é pesquisadora do Transverso desde 2019 e bolsista Fapesc.